16 de março de 2017

Neutralidade



Não por acaso, eu acho, há um provérbio que diz: “Seja quente ou seja frio. Não seja morno, que eu te vomito". Outra afirmação que converge com isso é "Os lugares mais quentes do inferno estão reservados para aqueles que, em tempos de grave crise ética, mantêm sua neutralidade." (Dante, em "Divina Comédia").

O que me preocupa são as pessoas cordatas demais, as boazinhas demais, as que sempre estão de bem com a vida, como se nada lhes arranhasse a alma, como se nenhuma questão, vez por outra, estivesse na ponta da sua lança.

Pessoas que definem suas opiniões por frases evasivas numa complexa tentativa de não se mostrarem, não se revelarem.

A mim parece que a falta de revelação é a própria revelação.

Define bem - ou muito mal - o quanto são dedicadas a não se dedicarem, a não mergulharem.

Esse medo de exposição é uma oposição à sua extrema exposição. Pois, se expõem ao nada, e ao nada cabe quase tudo. E em tudo cabe muita coisa.

Gente latifúndia, geralmente, as incomoda profundamente.

Perguntam incessantemente como pode alguém não temer o destempero da revelação.

Enganam-se.

Em cada revelação há um misto bem temperado de emoções.

Acho mesmo que é da emoção que elas têm medo.

Talvez a raiva que tenham de quem se revela seja só um modo de querer ser como essa gente que se espalha pela vida.

|Cláudia Dornelles|

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